Nasci, e foi-me dita a necessidade de construir-se antes de construir - constituir-se antes de constituir. A voar com as próprias asas - mesmo que as da imaginação - e a andar com os próprios pés.
Foi-me dada a liberdade da decisão, o mundo da individualidade e independência - a vida em bandeja de alça dupla, coberta de prata.
Sempre ouvi que é preciso ser um primeiro, e só depois ser dois. Mas mesmo com as duas mãos não a levantava - viver flutuava ao meu redor.
Pensei ser leveza - a vida tem dessas coisas, e fui meu. Construí-me um, aos poucos; toda aquela coisa de construir pelo jardim e esperar pelas borboletas.
Você me conhece, e sabe que eu não sou desses caras que gostam de esperar, ou daqueles minuciosos. Não tenho paciência para construir jardins - falta-me o gosto de mexer na terra. Também não sou homem-borboleta; mariposa, quem sabe.
Admito que cheguei a desistir - fui convencido. Amor era para os jardineiros e borboletas, e eu me fazia de vôos breves. Deixei a vida - envolta em bandeja de prata de alça dupla - em algum canto do meu jardim mal-terminado e deixei de voar, convencido de que aquele não era mais que um dos tantos pedaços mal-colocados ou nunca encontrados - mais um desses pedaços que não deixavam-me ser completo.
Vieste de serra elétrica e encontraste apoio para as mãos. Minhas alças não respondiam a mim, mas a ti, e cavaste por entre as pratas o que eu tinha, já, por fantasia.
Carregava na bandeja não parte minha, mas tua. Mostraste-me, num abraço, tudo o que não encontrara; todos os meus vazios; mais importante, por que a vida flutuava ao meu redor.
E daí descobri: viver só faz sentido no - nosso - plural.